Hoje tem Marmelada?!? Não sinhô, se contente com o mamão mesmo.

Cá estou eu, pela segunda vez, as vésperas de uma introdução alimentar. E, bobinha que sou, achei que dessa vez seria mamão com açúcar. (Metaforicamente falando, claro, no way açucares antes de 2 anos aqui.)

Estou agora olhando para esse par de bochechas olhos, e lembrando como construímos essa relação durante esses 6 meses.

Você nasceu do jeito que quis. E, nos ensinando desde o primeiro minuto de vida que juntos estamos bem, mamou como se nada demais tivesse acontecido. Imagina, nascer é corriqueiro, e você sabia fazer isso.

Ao sair, procurou meus olhos e na sequência, meu peito. Seu lugar. Foi no meu peito que percebi seu lábio, me preocupei, e você com a maior naturalidade, me ensinou como é amamentar um bebê com lábio leporino.

Confesso que me assustei ao perceber, mas, também vi que estava se resolvendo. Meu único pensamento foi bem primitivo: se houvesse algum problema grave, você não mamaria. E meu coração foi se acalmando.

Nossa Golden Hour foi especial… E durou bem mais de 1h. Ficamos grudados até a chegada ao hospital, e, enquanto éramos avaliados juntos, você continuou mamando como se não houvesse amanhã. Saiu de casa mamando. Se esparramou no carro comigo, no banco de trás, mamando. Chegou ao hospital mamando. E só largou porque precisavam nos avaliar de modo mais completo, isso pouco mais de 2h após seu nascimento.

Fomos para a UTI, em função do peso. Disseram-nos que “faltavam” 200 gramas para esse corpinho ser ainda mais gostoso. Ali estava nossa primeira missão juntos: mamar o suficiente para cumprir um protocolo hospitalar e sairmos de lá rapidamente.  E foi ali que começamos nossos primeiros entraves: fomos colocados em cheque algumas vezes, eram muitas varáveis, muitas dúvidas alheias e muitas sentenças sem qualquer fundamento técnico (a falta de capacitação técnica de profissionais da saúde a respeito do aleitamento é algo assustador):

– “hmmm… Lábio leporino não mama no seio.”

– “Ele é pequeno!”

– “Essa apojadura está excessiva!”

– “Não seria melhor dar formula para ganhar peso mais rápido?”

– “Mas é só um leitinho para ajudar, vocês não precisam se sacrificar.”

– “Ele tem preguiça? Xiii, não vai mamar.”

– “Você não conseguirá amamenta-lo aqui dentro, bebe de UTI não mama SÓ na mãe.”

Fato é que nenhuma dessas frases sem sentido abalaram nossa certeza de que conseguiríamos, até porque, os principais mitos, já havíamos derrubado juntos. Foi no terceiro dia, com amamentação em livre demanda, apojadura com sucesso e pega correta, que tivemos um questionamento maior: você não ganhava peso. Caramba!! E nossas certezas? E tudo que sabíamos? E tudo que havíamos lido? Havia algo estranho nisso. Novamente, e agora de modo mais incisivo, a fórmula parecia ser único e mais seguro caminho.

Com todo nosso doce jeitinho casca grossa de ser, respiramos fundo, procurarmos informação e assumimos os riscos. Para discussão técnica, contamos com apoio de uma profissional na qual temos plena confiança, justamente por saber que, além de exercer com maestria sua profissão, é alguém que atua totalmente embasada em evidências científicas e, logo, sabe a importância do aleitamento materno exclusivo, especialmente para bebês dentro dessa comunidade de terapia intensiva.

Sabe Nonô, estava muito claro para nossa família que você não teria aquele peso eternamente, e que, se o peso não vinha, não era em função da amamentação. Estávamos fazendo um bom trabalho, precisávamos nos entregar.

Recebi alta hospitalar antes de você. Nesse dia tive medo… Eu via nesse processo de amamentação a chave para resguardar sua imunidade, era nosso antídoto, seja lá para o que fosse. Nossa rotina era insana, mas nosso mantra diário era “isso também passará”.

Seguimos por meses entre idas e vindas da UTI, transfusões, muitos exames e muitos testes até o diagnóstico. Em nenhum desses 180 dias você deixou de mamar. E muito.

Agora, meu “priquito”, encerramos um ciclo. Você está prestes a ser apresentado a um novo mundo, repleto de cores, texturas, aromas e sabores. O assunto dessa semana é a escolha da sua primeira fruta! Embora saiba que a alimentação é complementar (sua principal fonte nutricional ainda será o leite materno, por, pelo menos mais 6 meses), minha sensação é que a partir da introdução alimentar, vocês começam a aprender a ter o controle de suas vidas. Pode parecer exagerado, mas, é a sensação que tive nas duas vezes que vivi isso. É uma sensação muito, muito interessante.

Espero que você tenha aproveitado esse período tanto quanto eu. Foi uma delícia ser sua nutriz exclusiva todos esses dias! Tivemos dias difíceis, mas, não tivemos dúvidas a respeito de nossa decisão. Sou grata pela experiência que vivemos juntos, mas, principalmente pelos ensinamentos que você me trouxe a cada dia.

Sigamos, enfrentando tudo que precisarmos para defender nossas escolhas.

Estou com vocês de sempre e para sempre, de braços, coração e peito aberto (e cheio de leite! rsrsrs) para qualquer desafio. Amo você, tchubirubis.

Exposição

Desde que publiquei o blog e a página na rede social, recebo algumas mensagens (diretas ou não) de críticas quanto a exposição. Algumas pessoas se “preocupam” com o nível de exposição dos meus filhos, da minha vida ou das minhas escolhas. Aos de intenção sincera, meu acolhimento com o coração aberto, mas, gostaria de tranquiliza-los sobre minha consciência a respeito da segurança da informação e integridade física deles. Garanto que os periquitos não correm mais riscos em função da mãe escrevinhadeira que eles tem.

O que eu sinto não é inédito. Mães sentem essas e muitas outras coisas. E toda vivência é peculiar, cada uma se abrirá (ou não) de modo diferente para essa experiência. E TODAS tem meu respeito.

Desde que esses dois seres vieram para minha vida, tem um troço que toma conta do meu peito (além do leite – rsrsrsrs) que é incontrolável. É um negócio tão, mas tão “lá lá lááááá dentrão”, que me toma inteira. Sei lá que troço é esse, só sei que decidi deixar de racionalizar para acolher-me, e, não conseguindo mais guardar só para mim, decidi também documentar.

Minhas questões pessoais, decisões e modo como escolhi me abrir para a maternidade e outras coisas, não é para auto-promoção. Diga-se de passagem, esse tipo de pensamento não faz o menor sentido. O que eu faço, faço porque quero. E, acredite, eu compartilho APENAS aquilo que acredito agregar algum valor. Nossa vida é muito mais do que as linhas desse blog.

Eu acho que exposição não é necessariamente ruim. Minhas alegrias, são as mesmas de uma tonelada de mães. Meus medos, anseios e dúvidas, podem e são os mesmo de outra tonelada. Eu apenas registro essa parada toda, porque a única forma de nos encontrarmos nessas questões é expondo-as. Não estamos ainda no nível de telepatia adequado para comunicações não verbais.

Meu projeto pessoal envolve a criação de um espaço para discussão, um espaço para ouvir e, até mesmo, um espaço para calar e refletir. Um espaço de coisas que, infelizmente, a sociedade reprime na maternidade. Ou mesmo, ás vezes e temporariamente, a maternidade não permite. Meu objetivo com essa escrevinhação toda, é a voz do coletivo, especialmente, o feminino. Aqui, você mulher, mulher-mãe, tem voz. Tem colo. Tem uma xícara de café virtual e sororidade. Que essa possível exposição nos ajude a traduzir uma migalha desse turbilhão de sentimentos que corre em nós.

Um beijo, outro.

Cadê o cabelinho que estava aqui?!?

Nós acreditamos piamente que doar é um ato de amor, e é um exercício que tentamos praticar das mais variadas formas, antes e agora com eles, nossos bacuris de água doce (nota: biólogos de plantão, não faz o menor sentido mesmo, mas são parte do rol de apelidos aqui em casa.).

Há 15 dias tivemos o épico corte de cabelo, e, como não poderia deixar de ser, tinha cabelo ali para umas 4 cabeças. Tiramos uma mexa para nós, uma mexa para cada uma das avós, uma mexa para a torcida do Palmeiras, uma mexa para os dias frios, outra para os dias quentes e ainda conseguimos o suficiente para enviar à um projeto super bacana chamado “Rapunzel Solidária” (http://www.rapunzelsolidaria.org.br). Aliás, você aí, querendo mudar o visual, que tal passar na página deles e conhecer um pouco a respeito?!

Temos muitos outros projetos do gênero e, no geral, a doação é bem simples: corte de acordo com as orientações e envie por Correio!

Explicamos para o Tito o que faríamos com o cabelo, e, olha a carinha de concha que ele fez com o saquinho cheeeeeeinho:

Rapunzolx

(Vai lá, quase 20 cm de madeixas-fofinhas, enfeite a cabeça e as ideias de alguém!!)

Migu´s, nós podemos doar tantas coisas, mas taaaaaantas coisas mesmo! Faz um bem sem precedente, para quem envia e para quem recebe. Nós já estivemos várias vezes nas duas pontas dessa troca… E serei eternamente grata por todas elas. Simbora:

Sangue

Mas THati, tô bão não mulhé. Eu bebo. Tive hepatite. Minha mãe dizia que sou sangue ruim.

Fiiiii… Pode até ser que tu não seja lá essas côsa toda, mas, se o seu coração é do bão, passa em algum lugar sério (entidades, hospitais, Hemocentro) e faça os testes necessários. Veja se não dá mesmo para doar, se houver restrições, veja se são temporárias ou definitivas, enfim, tenha certeza de que não se pode doar. Porque se houver uma chance que seja, doe.

Medula Ossea

THati do céu, aqueeeeeela agulha, internação, hospital, bla bla bla.

Seeeeeeerguinte: Se tu for chamado para doar medula, cara, vá feliz e saltitante, porque também aumentou suas chances de ganhar a mega: A compatibilidade de medula é determinada pela genética e, segundo a AMEO (Associação de Medula Ossea), a chance de encontrar um doador compatível com um paciente é em média 1 em 100 mil.

Ah, se tu não ganhar na mega, quem receber sua medula certamente ganhará!! Uma meeega vida!!! :)

 

Alimentos

Aaaah THati… Esse daí eu faço! A última vez, doei lá pro povo de Mariana! E sempre que há catástrofes, dou um jeito e envio. Óia que coração puuuuur o meu, mulher?!

Então, migs… O pessoal lá não precisou de doação só naquela época. Ainda há necessidade. E temos mais um sem fim de pessoas que precisam de ajuda! É bacanudo sua mobilização em grandes catástrofes, mas, tente fazer isso de modo sistemático, veja também em seu entorno, se não há famílias carentes ou que estejam passando um aperto agora. Oferece-lhes a mão.

 

Bens materiais (roupa, móveis)

Eu quero é vender. Quem é carente, não precisa de móveis pra vivê.

Gente. Juro que já ouvi isso… Pessoas necessitadas são, antes de tudo, PESSOAS. Sim, precisam de cama, de lugar para guardar suas coisas, precisam cozinhar seus alimentos, precisam de prato, copo, precisam de muitas coisas, como nós. Não sou contra a venda, entendo que eventualmente quem vende, também precisa… Mas não venda simplesmente porque “para você não foi fácil”.  Acredite, não é fácil viver nessas condições extremas.

 

Tempo + Amor (ou Empatia, ou Sorriso, ou Atenção…)

THati, a vida é corrida. Não tenho tempo para nada. É casa, filhos, trabalho… Não tenho tempo nem de ir ao banheiro. Como é que vou doar tempo??

Olha… A vida é corrida mesmo. Mas, há um dito que eu repito como mantra, que vou ter que compartilhar: Quem quer acha um jeito. Que não quer, acha uma desculpa. Tudo é uma questão de organização minha gente, tudo. Se você puder doar 10 minutos do seu tempo, acredite, já fará uma grande diferença!! Deixa o celular um pouco de canto e veja como consegue vários 10 minutinhos durante seu dia… Some todos esses minutinhos, e:

  • Dá uma passadinha na escola mais próxima da sua casa, veja se o pátio não precisa ser varrido, ou mesmo se os copos ainda estão espalhados pelo refeitório e precisam ser levados à cozinha. Se permitirem, lave-os.
  • Sabe aquela criança que está desconsolada, chorando, gritando, porque a mãe ou pai teve que sair correndo para trabalhar, está atrasado, e não pode ficar ali falando que tudo ficará bem? Então, pega nas mãozinhas dela, ofereça água, seja empático. Diga que sente muito e lembre-o do amor de seus pais. Se possível, só saia de lá quando ela estiver calma.
  • Temos muitos asilos na cidade, onde 10 minutinhos de prosa fazem toda diferença na vida dessas pessoas… Ouça-os. Pegue em suas mãos.
  • Dê um sorriso para aquela pessoa parada no farol e deseje um “bom dia” sincero. Se ela não aparentar uma cara muito feliz, lembre-a de que viver é bom e de que tudo, a seu tempo, ficará bem.

Enfim: as grandes revoluções começam pequenas. Comece, mude a sua volta!! 😉

Periquitos Versão 2016

Tem sido muito bacana, muito mesmo, ter nossos próprios ritos de passagem. No último sábado de Fevereiro, tivemos mais um marco importante na nossa família. Na verdade, dois.

O primeiro marco foi ver nossos “prequitos” em suas “primeiras experiências” de modo simultâneo, e, nos demos conta de que essa poderá ser a primeira de muitas coisas novas que eles farão juntos. Coisas simples, coisas mais complexas, mas que só uma pequena diferença de idade pode permitir. Imaginamos um sem fim de possibilidades onde os vimos juntos: conhecer a neve, a primeira viagem sozinhos (sem os pais)… As ansiedades da primeira paixão. [Ai céus, esse cordão tem fim não, toda vez cortamos um pouco mais.]

O segundo marco foi o corte de cabelo. SIM. Nossos prequitos estão de visual novo!!! :)

Tínhamos cá dentro de nós que, apenas quando tivéssemos um motivo (nascido de qualquer da tríade “Dono da cabeleira x Mamãe x Papai”), cortaríamos os cabelos do povo. E então, esse motivo chegou para cada um, na mesma semana.

[Cara, as coisas por aqui são muito estranhas, e essas estranhezas, atribuímos ao universo…]

Fizemos a rotina com os dois, lavar aqueles cabelinhos tão fofinhos, seca-los, penteá-los, e fomos. Não teve jeito e na primeira tesourada de cada um, ninjas voadores cortadores de cebola apareceram no salão, e, uma lagriminha (só uma) discreta do papai e da mamãe eles levaram. Ninjas danados. Não era o cabelo que se ia. Era uma transição. Dos dois… Dos quatro.

Cara, foi um dia bacanão!!! :)

Agora, veja ibáááágens novas dos dois, mais fofoletes do que nunca.

Meninos2

“(…) Quem disse que cabelo não sente

Quem disse que cabelo não gosta de pente

Cabelo quando cresce é tempo

Cabelo embaraçado é vento

Cabelo vem lá de dentro

Cabelo é como pensamento” – Arnaldo Antunes

Maternar, as vezes, dói.

Ver um filho, em qualquer nível de sofrimento que seja, dói. Na nossa alma.

Dói vê-los ralar os joelhos. Dói vê-los bater o dedo. Dói quando eles caem. Dói se cai um cisco no olho. E dói absurdamente vê-los fragilizados.

Com menos de um mês de vida, descobrimos que algo não ia como esperado nesse seu pequeno corpinho gostoso, Nonô. E essa experiência foi, definitivamente, o momento de maior insegurança e dor que já vivi. Eu te olhava, e você estava aparentemente bem. Mas um papel (o resultado de um exame) dizia que não. E eu não conseguia acreditar.

No mesmo dia, demos entrada na UTI e foi realizado a primeira transfusão. Que noite aquela… Nunca senti tanto medo, nunca o segurei tão firme, nunca olhei tão fundo em seus olhos. Tantos fios, tantos aparelhos, tanto barulho. Mas o barulho maior era dentro do peito, era nessa cabeça de mãe. O medo é barulhento, filho.

Foi vê-lo sendo preparado para a transfusão que me sacudiu. Foi ali, no meio daqueles fios e aparelhos, naquela cama gelada, que seu olhar me procurou. Foi ali que te disse que você sempre terá meu melhor. Depois de organizarem tudo, me posicionei ao lado da cama, em pé. Peguei sua mão. E começamos. Te expliquei que estava ali, daquele jeito, porque é em pé que se luta. Sequei as lágrimas também, porque, olhos marejados não permitem ver tudo que acontece no campo de batalha. E sorri para você, porque era o melhor que eu poderia lhe oferecer naquele momento. Foi naquele dia que lhe falei que você me tem por inteira.

Foi uma madrugada muito intensa. Acompanhei muitas das gotas que saíram daquela bolsa e entraram em sua corrente sanguínea. Passamos a noite de mãos dadas, oramos a Deus por aquele doador voluntário, e também agradeci pela sua presença nesse plano. Senti necessidade de falar-lhe o quanto era importante, desejado e querido aqui. E que precisamos de você conosco. Te lembrei também que essa é a sua história, uma vivência que, embora dolorida, é necessária e que nós passaríamos por isso. Nós estamos juntos, de sempre e para sempre.

Você ficou bem após a transfusão, mas ainda não sabíamos o que estava acontecendo. Saímos de lá buscando ajuda. Todos os dias acordávamos querendo saber o que você tinha, o que acontecia dentro de você. Lutar contra uma doença é sempre muito difícil. Lutar contra algo que você se quer sabe o que é, é desesperador.

Foram 4 meses de intensa investigação, algumas transfusões, inúmeros especialistas, centenas de exames, internações e consultas, até que conseguíssemos chegar a um diagnóstico. Iniciamos a terapia menos invasiva e, pela graça de Deus, você está respondendo super bem!!! :)

Tenho fé de que logo logo estará tudo como deveria ser. Nós aprenderemos como conviver com isso. Você já não é transfundido há 2 meses, seu corpo está aprendendo a trabalhar nesse modelo no qual veio “configurado”. E se você está bem, progredindo, estamos bem também! :)

É, Nonossauro… Você vem nos ensinando a viver um dia de cada vez. E a acolher as nossas dores.

Maaaaaaa ooooi?? Não quer “fada”??

Tito chegou da escola, e, seguimos nossa rotina: escolhemos uma roupa, o deitei na cama, tirei o uniforme, a fralda, limpei… Peguei a nova fralda e, na hora que o levantei para colocar, ouvi um “Não, mamãe. No té!”.

Confesso que não levei em consideração. Brinquei, beijei, coloquei a camiseta e voltei para colocar a fralda.

– “No té mamãe. No té fada!”.

– Quer sim filho, lembra? Colocamos, vamos comer bolo, assistir o Hi Five… Olha, vai começar!! Corre, corre, corre!

– “Fai, fai Tiiiiiim! Fada, não, no té. Té toiéééééta. Cóe, cóe, cóe!” (Hi Five sim, fralda não, não quero. Quero cueca. Corre, corre, corre!)

Pausa. Espera, onde é que ele aprendeu que existe cueca?!? Volto a mim. Abro a gaveta e peço para ele mostrar. Ele pega uma e grita: “Ééééééta, mãe!! Tupelelói!”. Sim, ele queria colocar uma cueca de super herói que ganhou da bisa. A vestimos. Ele não quis o shorts… Foi correndo mostrar pro Vlad (!!) que ele tinha “toiéééta tupelelói”. Começou o programa, cantou, dançou e pronto. Desde então, sem negociação para fraldas.

E assim seguimos há 14 dias, num desfralde repentino, sem sinais prévios. É… Se alguém não estava pronto para isso, acho que esse alguém era eu.

Taca-lhe pau!

Da visão paupérrima de que existe mãe de segunda, terceira ou quinquagésima viagem

“THati, agora tá  fácil!! Você já é mãe de segunda viagem, já sabe tudo! Não dá nem pra ter dúvidas, né?”

Quando ouço esse tipo de comentário, me ocorre:

  1. Esse ser não tem filhos.
  2. Se esse ser tem um filho, não faz ideia do que está falando.
  3. Se esse ser tem filhoS (e se forem pequenos), deve estar cansado, sob grande stress e nem sabe mais o que está falando.
  4. Se esse ser tem filhos adultos, também tem amnesia.

E para todos os casos, prefiro relevar para não dar um mortal bem no meio do peito. Cara de paisagem mode on e simbora que tenho muita coisa para fazer.

Minha gente… Minha gente! A parada é rápida e o bagulho é louco, mermão!! O que é saber tudo? O que é ter experiência?

Aqui tem humanos, não são bonecos não. Humanos são diferentes. E as diferenças são reveladas até mesmo nas atividades mais rotineiras. Amamenta-los é muito diferente, cada um tem um jeitinho próprio, uma posição preferida no colo, uma teta querida. Um, mama desperto me olhando fixamente, outro, mama com a mãozinha no meu cabelo e sorrindo com os olhos. Um sente muito frio, outro é “calorento”. Um só dorme no colo, outro só dorme se estiver na cama. Um gosta de água bem quente, outro, de água quase fria no banho. Um requer conversa clara sobre fazer ou não algo, já o outro, ainda não sei. São tantas, mas tantas particularidades!! E a todas essas diferenças e preferências, chamamos individualidade.

Titossauro e Nono Ramos são opostos. Mas eu acho que, mesmo se fossem parecidos, ainda assim seriam experiências diferentes. Eu os conheço pouco e todos os dias descubro um pouco mais sobre cada um, todos os dias me surpreendo com a capacidade que temos de nos aprender e encontrar um modo funcional de convivência. E também entendo que esse aprendizado jamais terá fim, por maior que seja a convivência, e jamais saberei previamente como agir.

Não tenho pretensão de bradar aos quatro ventos, com peito estufado, que “Fulano é meu filho e eu o conheço!”: Espero pensar que “Fulano é meu filho e ele me surpreende sempre.”. Meu desejo hoje é que eles se pautem nos valores que conseguirmos transferir para eles ao longo da nossa convivência, e que façam o melhor uso de acordo com suas crenças. Meu caminho é de respeito à essas pessoas e a suas particularidades, desde sempre: não é porque “deu certo” para um, que dará para todos. São irmãos, não são a mesma pessoa! E por isso, quando vou fazer algo pela primeira vez com cada um deles, tento me despir da experiência do anterior. Eu preciso ver, ouvir e sentir o que aquela pessoa precisa.

Olha, mesmo simplificando, esse lance de maternar não é bolinho não, especialmente quando se escolhe trilhar um caminho diferente, quando se sai da caixinha para fazer do seu jeito: É muita coisa nova, muita leitura, muitas conversas, muita revisão cultural, muita revisão de valores, muitos questionamentos, muitas tentativas, alguns erros e muitos acertos. Afirmo sem dúvidas: Eu sou mãe duas vezes. Duas vezes mãe de uma eterna primeira viagem.

Apoiar o desenvolvimento físico e emocional de alguém é algo complexo e exige muito mais que experiência prévia: doses cavalares de amor e empatia são fundamentais.   

Então, miguxo, não tá fácil não. E ainda bem que não está, sinal de que estou aprendendo e saindo da minha zona de conforto, buscando um desenvolvimento pleno para nós.

Um beijo, outro.

 2016_02_11

A respeito da liberdade capilar dessa família

IMG_20160226_062259

R-E-A-L-I-Z-A

Cena 1: Tito e eu, aguardando o farol abrir

– Que menininha linda!! Uma fofa! Qual o nome dela?

– Vicente.

– Não! Perguntei o nome dela!

– Sim, eu sei. É Vi-cen-te.

– Ela chama Vicente?!?

Silêncio. Respiração.

– É que não é ELA. É ele. E sim, ELE chama-se Vicente.

– Tem certeza?!

Silêncio. Respiração profunda. Olhar fixo. Resposta no pensamento: Não, eu me chamo Vicente. Maaaaas, repenso e respondo, com o máximo de polidez possível.

– Certeza do que amiga? Do nome ou se ele é menino?

 

Cena 2: Carrinho de bebê no shopping center, Reinaldo (o pai) fazendo a retirada.

– Boa tarde, quero um carrinho, por favor.

– Sim! Nome do bebê.

– Vicente.

– Não, senhor. Perguntei o nome do bebê, não o seu.

– Sim, Vicente.

Atendendo olha de cima a baixo:

– Senhor, só pode pedir carrinho para o bebê que realmente vai usar.

– Eu sei.

– Onde está o Vicente?

– Esse aqui no meu colo.

– Ah!! É um menino!! Mas com esse cabelão, nem parece. – Pausa para busca no cadastro e outra pergunta: Tem certeza, né senhor?

***************

Se há uma coisa que gera curiosidade por onde quer que estejamos, é sobre o comprimento dos cabelos do Tito. E consequentemente a quantidade de cabelos de Nonô, seguido da pergunta: “Mas ele também terá cabelão ou nesse você vai cortar cedo?”

Gente, tá aí uma coisa que acho curiosa: que raaaaaios de associação é essa de que cabelos compridos determina sexo? Qualé o problema de cabelão em meninos, mermão?

Humanos, homens ou mulheres, tem cabelos. O comprimento não tem qualquer relação ao sexo ou gênero de ninguém! Ele será o que quiser, com ou sem cabelos. Somos livres!! L-i-v-r-e-s!!

Aqui em casa, o lema  é “faça o que tu queres, pois é tudo da lei”. 1000 vezes dito, 1000 vezes repetido: não cortamos o cabelo dele porque, até o momento, não encontramos um motivo que seja. Havendo, certamente o faremos. Não havendo, aguardaremos a manifestação da pessoa, dono da cabeleira, sobre o que quer fazer. Fim. Pode ser hoje, pode ser amanhã, pode ser daqui 15 anos. Eu, sinceramente, não sei.

Acha esquisito? Ok! Eu também acho tanta coisa esquisita por aí e, com o crivo que Nosso Senhor Jesus Cristo nos deu, guardo para mim… O respeito ao outro é importante e nós, não abrimos mão disso.

E, vamuuu combiná: que coisinha mais chata essa vida certinha, cheia de prazos, data/ dia certo e dentro de tantos padrões, hein? Não somos obrigados.

Agora sai do nosso caminho com seu preconceito que queremos passar com nossos cabelos. Obrigada, de nada.

Beijos de úzis.

O poder de Janeiro

Ah, Janeirão vééééééiiiii de meu Deus! O mês de tantas promessas. O mês dos planos, das expectativas e dos bons pensamentos… Sinceramente, acho incrível o poder renovador desse mês!

Meu primeiro filho nasceu nesse contexto. E, como não poderia deixar de ser, veio assim: 1000 planos, 2000 projetos e uma força realizadora sem igual.

Ele tem 2 anos. Certamente não faz ideia do que falo, tão pouco considera a mudança que fez na minha vida. Vicente é Primavera em pleno Verão. Vicente é folha nova em arvore velha. Vicente é meu olhar esperançoso para o futuro.

Desde que ele nasceu, tive 24 janeiros. E tive também muitos “Vicentes” cruzando meu caminho, carregados de boas novas. Com eles, aprendi a abrir meus olhos e coração para receber as boas coisas do universo. Eu fui realmente agraciada!

Que a força e o poder realizador desses dois esteja comigo para sempre. Que Vicente seja minha dose diária de motivação.

Primeira vez
Primeira vez
Milésima vez
Milésima vez

Novo Idioma: Vicentês

Em um programa de imersão, aprendendo um novo idioma: Vicentês.
– Té feié niiiilíaaaaca!!
– O que, Tito?! Repete pra mamãe entender.
– Feee-iiiiii-ééé. Tom eitchê. Niiiilíaaaaca, mamãe! Atchim (Um biquinho sugando o ar e gesto de segurar xícara com a mãozinha)
– Aaaah! Café com leite, na xícara!!
– Tchim! (Sim)
– Onde é que você tomou isso?!
E com uma risadinha safada: – Na Dídi (Ísis, a avó)!! Ôtooooso, hummmm