Epopeia Noturna

– Ô Nôte, Nonô. Ô Nôte, Dád. Ô Nôte, papai. (Boa noite, Nono. Boa noite, Vlad. Boa noite, papai.)
– Tudo pronto, Tito?
– Tiiiim! (Sim!)
– Então vai para o quarto que já estou indo. Vou escovar os meus dentes agora.
– Eca, mamãe! Cocô di dinossálo! No tente da mamãe… Ééééca!! Que fedô. Cová, fazê atim ó: tic, tic, tic. Cocô di dinossálo… Tadinha… Cou foi, mamãe? (Eca, mamãe! Cocô de dinossaruro! No dente da mamãe… Ééééca! Que fedor. Escovar, fazer assim ó: tic, tic, tic. Cocô de dinossauro… Tadinha… Quando foi, mamãe?)
– Viu só, Tito? Se não escova os dentinhos depois de comer, e antes de dormir, o dinossauro vem e faz cocô no dentinho. Fica ruim, né? Vou lá resolver isso, antes que fique pior. Me espera ali, no seu quarto, na poltrona.
– Tá bom! Mamãe, cou foi? Foi ôti nôte? Biu na cama e fez cocô no tente? (Tá bom! Mamãe, quando foi? Foi ontem à noite? Ele subiu na cama e fez cocô no dente?)
– Acho que sim… Eu não reparei, porque eu estava dormindo… Vai lá, mamãe já vai.
– Tá bom!

Chego no quarto, ele está na poltrona, com seus livros. “Inéditos”.

– Té itóia. Tenta ti? (Quero história. Senta aqui?)
– Sim, vai mais pra lá, pra mamãe colocar o bumbum dela com o seu.
Ele vai para o cantinho e me dá os livros.
– Vejamos… Vamos ler uma história nova? Mamãe tem uma ótima, que tá aqui ó! – Aponto para minha cabeça.
– Qu´eu vê! – Puxa minha cabeça – Tonta, mamãe Thati! Tonta! (Deixa eu ver! Conta mamãe Thati, conta!)
Puxo ele para meu colo, e começo: – Um dia, tava lá de boa uma ovelha colorida, chamada Petrúcia. Feliz a bichinha, Tito… Bem feliz mesmo! Ela vivia logo ali, perto da Raposo Tavares, sabe? A Petrucinha, Tito, gostava de comer mato. Uma coisa doida, precisava de ver… Comia tudo que aparecia na frente, comia grama, comia flores, comia plantinha dos vizinhos, comia árvore, comiaaaa…..
– Mamãe!! Susúcia tomia avôles? (Mamãe, Petrúcia comia árvores?)
– Sim!! Ela comia arvores! Alguns animais comem árvores, as folhinhas…
– Aaaaah… Ela tomia dinossálo? (Aaaaah… Ela comia dinossauro?)
– Ó, às vezes, quando aparecia um perdido lá na rodovia, ela comia sim… Mas ela gostava mais de comer os matinhos pequenos, as graminhas… Deixa a mamãe continuar, presta atenção ó! Daí, tá lá a Petrúcia, linda e saltitante, correndo, correndo, procurando a casa da Maroca Pororoca, porque ela queria convidar a Maroquita para visitar o primo.
– Hmmmmm…. Zá sei!!! Susúcia na casa do Jão! (Hmmmmm… Já sei! Petrúcia na casa do João!)
– Que João?!
– Jão, mamãe! Toiésta… Buça! (João, mamãe! Floresta… Bruxa!)
– Nossa, mas a floresta do João era aqui perto também?
– Tiiiiim! (Sim)
– E a Maroca é prima do João?!? Achei que ela era priminha só do Titinho e do Nonossauro…
– Tamiém. Maloca imã do Jão. Jão e Maloca. (Também. Maroca é irmã do João. João e Maroca)
– Aaaaaaaaah… Entendi!!! Mas a Maria que é irmã do João, não é a mesma dessa história!
– É tim! Maloca, Jão, Susúcia, Tito. Dád. Nonô. Dídis. Tipâmi tamém. (É sim! É Maroca, João, Petrúcia, Tito. Vlad. Nonô. Isis (avó). Tia Thami também)
– Tá bom. Vamos colocar todo mundo na mesma história, da hora isso aí. Bom, estavam lá todos felizes, saltitantes, correndo feito cabritos doidos. Todos pela Raposo Tavares, porque a Bruxa morava logo ali no km18. Um transito do mal… E eles querendo achar uma casinha na floresta, para jantar…
– Mamãe, tá tu fome? (Mamãe, está com fome?)
– Eu?!? Não! Quem está com fome é essa gente da história…
– Tito, eu!
– Que tem? Tá com fome?
– Não… Té mamá. Um toquinho, tá bom? Até déiz. (Não… Quero mamar. Um pouquinho, tá bom? Até dez.)
– Tá bom… Só um pouquinho mesmo… E ouve a história para dormir.

Pausa, pega o mamá, e começa: – uuuuum, dôs, tês, táto, tinco, teis, téte, ôto, nóne, déiz. Cabô toquinho.
– Sim, chega então? Vamos continuar?
– Tim! (Sim)
– OK. Então, estavam lá, todos muito felizes, procurando a casinha na floresta, para jantarem e depois dormir. De repente…
– Ôbo! Ó lá!!!! – Aponta para a porta do quarto – Tadinho do ôbo… (Lobo, olha lá! Tadinho do lobo…)
– Porque tadinho do lobo?
– Maloca queceu ôbo. Num chóia. Vem ti papai…. (Maroca esqueceu do lobo… Não chora. Vem com o papai)
– Mano, o lobo é seu filho?!?
– É tim. Té mamá tamém. Só um toquinho, tá bom? Tá tiste… Veeeeem, papai… (É sim. Ele quer mamar também. Só um pouquinho, tá bom? Tá triste… Vem, papai)
Faz gesto de pegar no colo e leva o “lobo” ao peito. – shhhhhh, shhhhh, shhhhhh…. Talma! Tudo bem. – Beija, cobre o lobo imaginário com sua blusa.
– Mamãe, tainho nele. Cicisa… (Mamãe, carinho nele. Precisa)
– Oooow lobo, tudo bem… shhhhhh, shhhhh, shhhhh, se acalme. Estamos aqui…
– É, mamãe tá ati. Papai tamém. Papai Tito, Nono, Dád… Tooooodo bem. Shhhhhhhh, shhhhhh, shhhhhhh. (É, mamãe está aqui. Papai também. Papai do Tito, Nono, Vlad… Tuuuuuuuuuudo bem)
Ele fica em silencio.
– Que foi?
– Ômiu. (Dormiu)
– E você??
– Eu não.
– Tô percebendo… Vamos ficar quietinhos então, para não acordar o lobo?
– Tim. Tóbe ele. (Sim, cobre ele).
Peguei a coberta em joguei em todos nós… No meu colo, com os olhinhos já cerrados, ele fecha a noite com chave de ouro:
– Lhamo, mamãe. Otê. (Te amo, mamãe. Você)
– Lhe amo também, Titinho. Muito. Muito mesmo.

Dormiu agarrado ao lobo, e com todos nossos amigos não tão imaginários assim…

 2016_05_19 - Epopeia Noturna

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