Arquivos mensais: fevereiro 2016

Maternar, as vezes, dói.

Ver um filho, em qualquer nível de sofrimento que seja, dói. Na nossa alma.

Dói vê-los ralar os joelhos. Dói vê-los bater o dedo. Dói quando eles caem. Dói se cai um cisco no olho. E dói absurdamente vê-los fragilizados.

Com menos de um mês de vida, descobrimos que algo não ia como esperado nesse seu pequeno corpinho gostoso, Nonô. E essa experiência foi, definitivamente, o momento de maior insegurança e dor que já vivi. Eu te olhava, e você estava aparentemente bem. Mas um papel (o resultado de um exame) dizia que não. E eu não conseguia acreditar.

No mesmo dia, demos entrada na UTI e foi realizado a primeira transfusão. Que noite aquela… Nunca senti tanto medo, nunca o segurei tão firme, nunca olhei tão fundo em seus olhos. Tantos fios, tantos aparelhos, tanto barulho. Mas o barulho maior era dentro do peito, era nessa cabeça de mãe. O medo é barulhento, filho.

Foi vê-lo sendo preparado para a transfusão que me sacudiu. Foi ali, no meio daqueles fios e aparelhos, naquela cama gelada, que seu olhar me procurou. Foi ali que te disse que você sempre terá meu melhor. Depois de organizarem tudo, me posicionei ao lado da cama, em pé. Peguei sua mão. E começamos. Te expliquei que estava ali, daquele jeito, porque é em pé que se luta. Sequei as lágrimas também, porque, olhos marejados não permitem ver tudo que acontece no campo de batalha. E sorri para você, porque era o melhor que eu poderia lhe oferecer naquele momento. Foi naquele dia que lhe falei que você me tem por inteira.

Foi uma madrugada muito intensa. Acompanhei muitas das gotas que saíram daquela bolsa e entraram em sua corrente sanguínea. Passamos a noite de mãos dadas, oramos a Deus por aquele doador voluntário, e também agradeci pela sua presença nesse plano. Senti necessidade de falar-lhe o quanto era importante, desejado e querido aqui. E que precisamos de você conosco. Te lembrei também que essa é a sua história, uma vivência que, embora dolorida, é necessária e que nós passaríamos por isso. Nós estamos juntos, de sempre e para sempre.

Você ficou bem após a transfusão, mas ainda não sabíamos o que estava acontecendo. Saímos de lá buscando ajuda. Todos os dias acordávamos querendo saber o que você tinha, o que acontecia dentro de você. Lutar contra uma doença é sempre muito difícil. Lutar contra algo que você se quer sabe o que é, é desesperador.

Foram 4 meses de intensa investigação, algumas transfusões, inúmeros especialistas, centenas de exames, internações e consultas, até que conseguíssemos chegar a um diagnóstico. Iniciamos a terapia menos invasiva e, pela graça de Deus, você está respondendo super bem!!! :)

Tenho fé de que logo logo estará tudo como deveria ser. Nós aprenderemos como conviver com isso. Você já não é transfundido há 2 meses, seu corpo está aprendendo a trabalhar nesse modelo no qual veio “configurado”. E se você está bem, progredindo, estamos bem também! :)

É, Nonossauro… Você vem nos ensinando a viver um dia de cada vez. E a acolher as nossas dores.

Maaaaaaa ooooi?? Não quer “fada”??

Tito chegou da escola, e, seguimos nossa rotina: escolhemos uma roupa, o deitei na cama, tirei o uniforme, a fralda, limpei… Peguei a nova fralda e, na hora que o levantei para colocar, ouvi um “Não, mamãe. No té!”.

Confesso que não levei em consideração. Brinquei, beijei, coloquei a camiseta e voltei para colocar a fralda.

– “No té mamãe. No té fada!”.

– Quer sim filho, lembra? Colocamos, vamos comer bolo, assistir o Hi Five… Olha, vai começar!! Corre, corre, corre!

– “Fai, fai Tiiiiiim! Fada, não, no té. Té toiéééééta. Cóe, cóe, cóe!” (Hi Five sim, fralda não, não quero. Quero cueca. Corre, corre, corre!)

Pausa. Espera, onde é que ele aprendeu que existe cueca?!? Volto a mim. Abro a gaveta e peço para ele mostrar. Ele pega uma e grita: “Ééééééta, mãe!! Tupelelói!”. Sim, ele queria colocar uma cueca de super herói que ganhou da bisa. A vestimos. Ele não quis o shorts… Foi correndo mostrar pro Vlad (!!) que ele tinha “toiéééta tupelelói”. Começou o programa, cantou, dançou e pronto. Desde então, sem negociação para fraldas.

E assim seguimos há 14 dias, num desfralde repentino, sem sinais prévios. É… Se alguém não estava pronto para isso, acho que esse alguém era eu.

Taca-lhe pau!

Da visão paupérrima de que existe mãe de segunda, terceira ou quinquagésima viagem

“THati, agora tá  fácil!! Você já é mãe de segunda viagem, já sabe tudo! Não dá nem pra ter dúvidas, né?”

Quando ouço esse tipo de comentário, me ocorre:

  1. Esse ser não tem filhos.
  2. Se esse ser tem um filho, não faz ideia do que está falando.
  3. Se esse ser tem filhoS (e se forem pequenos), deve estar cansado, sob grande stress e nem sabe mais o que está falando.
  4. Se esse ser tem filhos adultos, também tem amnesia.

E para todos os casos, prefiro relevar para não dar um mortal bem no meio do peito. Cara de paisagem mode on e simbora que tenho muita coisa para fazer.

Minha gente… Minha gente! A parada é rápida e o bagulho é louco, mermão!! O que é saber tudo? O que é ter experiência?

Aqui tem humanos, não são bonecos não. Humanos são diferentes. E as diferenças são reveladas até mesmo nas atividades mais rotineiras. Amamenta-los é muito diferente, cada um tem um jeitinho próprio, uma posição preferida no colo, uma teta querida. Um, mama desperto me olhando fixamente, outro, mama com a mãozinha no meu cabelo e sorrindo com os olhos. Um sente muito frio, outro é “calorento”. Um só dorme no colo, outro só dorme se estiver na cama. Um gosta de água bem quente, outro, de água quase fria no banho. Um requer conversa clara sobre fazer ou não algo, já o outro, ainda não sei. São tantas, mas tantas particularidades!! E a todas essas diferenças e preferências, chamamos individualidade.

Titossauro e Nono Ramos são opostos. Mas eu acho que, mesmo se fossem parecidos, ainda assim seriam experiências diferentes. Eu os conheço pouco e todos os dias descubro um pouco mais sobre cada um, todos os dias me surpreendo com a capacidade que temos de nos aprender e encontrar um modo funcional de convivência. E também entendo que esse aprendizado jamais terá fim, por maior que seja a convivência, e jamais saberei previamente como agir.

Não tenho pretensão de bradar aos quatro ventos, com peito estufado, que “Fulano é meu filho e eu o conheço!”: Espero pensar que “Fulano é meu filho e ele me surpreende sempre.”. Meu desejo hoje é que eles se pautem nos valores que conseguirmos transferir para eles ao longo da nossa convivência, e que façam o melhor uso de acordo com suas crenças. Meu caminho é de respeito à essas pessoas e a suas particularidades, desde sempre: não é porque “deu certo” para um, que dará para todos. São irmãos, não são a mesma pessoa! E por isso, quando vou fazer algo pela primeira vez com cada um deles, tento me despir da experiência do anterior. Eu preciso ver, ouvir e sentir o que aquela pessoa precisa.

Olha, mesmo simplificando, esse lance de maternar não é bolinho não, especialmente quando se escolhe trilhar um caminho diferente, quando se sai da caixinha para fazer do seu jeito: É muita coisa nova, muita leitura, muitas conversas, muita revisão cultural, muita revisão de valores, muitos questionamentos, muitas tentativas, alguns erros e muitos acertos. Afirmo sem dúvidas: Eu sou mãe duas vezes. Duas vezes mãe de uma eterna primeira viagem.

Apoiar o desenvolvimento físico e emocional de alguém é algo complexo e exige muito mais que experiência prévia: doses cavalares de amor e empatia são fundamentais.   

Então, miguxo, não tá fácil não. E ainda bem que não está, sinal de que estou aprendendo e saindo da minha zona de conforto, buscando um desenvolvimento pleno para nós.

Um beijo, outro.

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A respeito da liberdade capilar dessa família

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R-E-A-L-I-Z-A

Cena 1: Tito e eu, aguardando o farol abrir

– Que menininha linda!! Uma fofa! Qual o nome dela?

– Vicente.

– Não! Perguntei o nome dela!

– Sim, eu sei. É Vi-cen-te.

– Ela chama Vicente?!?

Silêncio. Respiração.

– É que não é ELA. É ele. E sim, ELE chama-se Vicente.

– Tem certeza?!

Silêncio. Respiração profunda. Olhar fixo. Resposta no pensamento: Não, eu me chamo Vicente. Maaaaas, repenso e respondo, com o máximo de polidez possível.

– Certeza do que amiga? Do nome ou se ele é menino?

 

Cena 2: Carrinho de bebê no shopping center, Reinaldo (o pai) fazendo a retirada.

– Boa tarde, quero um carrinho, por favor.

– Sim! Nome do bebê.

– Vicente.

– Não, senhor. Perguntei o nome do bebê, não o seu.

– Sim, Vicente.

Atendendo olha de cima a baixo:

– Senhor, só pode pedir carrinho para o bebê que realmente vai usar.

– Eu sei.

– Onde está o Vicente?

– Esse aqui no meu colo.

– Ah!! É um menino!! Mas com esse cabelão, nem parece. – Pausa para busca no cadastro e outra pergunta: Tem certeza, né senhor?

***************

Se há uma coisa que gera curiosidade por onde quer que estejamos, é sobre o comprimento dos cabelos do Tito. E consequentemente a quantidade de cabelos de Nonô, seguido da pergunta: “Mas ele também terá cabelão ou nesse você vai cortar cedo?”

Gente, tá aí uma coisa que acho curiosa: que raaaaaios de associação é essa de que cabelos compridos determina sexo? Qualé o problema de cabelão em meninos, mermão?

Humanos, homens ou mulheres, tem cabelos. O comprimento não tem qualquer relação ao sexo ou gênero de ninguém! Ele será o que quiser, com ou sem cabelos. Somos livres!! L-i-v-r-e-s!!

Aqui em casa, o lema  é “faça o que tu queres, pois é tudo da lei”. 1000 vezes dito, 1000 vezes repetido: não cortamos o cabelo dele porque, até o momento, não encontramos um motivo que seja. Havendo, certamente o faremos. Não havendo, aguardaremos a manifestação da pessoa, dono da cabeleira, sobre o que quer fazer. Fim. Pode ser hoje, pode ser amanhã, pode ser daqui 15 anos. Eu, sinceramente, não sei.

Acha esquisito? Ok! Eu também acho tanta coisa esquisita por aí e, com o crivo que Nosso Senhor Jesus Cristo nos deu, guardo para mim… O respeito ao outro é importante e nós, não abrimos mão disso.

E, vamuuu combiná: que coisinha mais chata essa vida certinha, cheia de prazos, data/ dia certo e dentro de tantos padrões, hein? Não somos obrigados.

Agora sai do nosso caminho com seu preconceito que queremos passar com nossos cabelos. Obrigada, de nada.

Beijos de úzis.