Arquivos mensais: fevereiro 2015

Tristeza e Gratidão

Meu coração está grato. Contraditoriamente triste e grato.
Uma pessoa querida partiu desse plano hoje pela manhã. Embora tenha ciência e respeito pelo momento que era dela, há inquietações naturais com esse assunto. A morte choca. Sempre.
Também nessa manhã, tive a chance de “reconhecer” uma pessoa. Já a conhecia, mas, me dei conta de que não era de verdade. Hoje a reconheci como mulher, como mãe, como guerreira que é… Coincidentemente, a reconheci pela sua luta à vida, que, cada qual com suas questões nesse sentido, se assemelha a que partiu hoje cedo.
Definitivamente, a maternidade mudou minha percepção sobre a vida. Mudou minha forma de ver o outro, de ver o mundo.
Para a pessoa que partiu e para a pessoa que chegou, estamos ligadas por meio da maternidade. Eu sou grata a essas duas, pelo aprendizado que trouxeram a tona, especialmente nessa manhã.

Queridas, meu desejo é que sigam o caminho da paz, nessa terra e no outro plano.

Gratidão, vida. Gratidão por me aproximar e permitir que eu evoluísse um pouco mais hoje.

Dos assuntos pouco convencionais: Aborto

Eu sou pró vida. Absolutamente. Mas confesso que tenho visto pouco sentido nessa campanha “contra o aborto”.
Acho curioso a pessoa ser contra o aborto e defender a pena de morte.
Acho contraditório quando vejo o posicionamento de alguns sobre o assunto, mas a favor do abandono.
Acho curioso a aceitação do aborto quando se pensa que a mãe de um marginal poderia ter feito isso.
Acho ainda mais curioso a “culpa” do aborto ser apenas da mulher, e o genitor se quer ser referenciado.

Sob aspecto religioso, espero que cada um colha o resultado de suas ações. E pensando sobre isso, imagino que não deva ser uma decisão fácil e muito menos administrável… Isso quando é uma decisão, porque sabemos de um grande número de casos onde isso é uma imposição. Já basta a culpa, a marginalização, o julgamento, as mazelas, marcas físicas e emocionais que essas mulheres carregarão até o fim de seus dias.

Ainda sobre religião, não me cabe julgar. A mim, cabe apenas a sororidade, então, não usarei minha gestação para questionar as decisões alheias e fazer essas mulheres sofrerem ainda mais. Muito menos para marginalizar alguém que precisa de amor… Nesse momento, acredito que a falta dele de alguma forma leve alguém a uma decisão tão extrema.

Quanto a parte prática, reforço: o Estado é L-A-I-C-O, ou seja, NÃO se permite a interferência de correntes religiosas em assuntos sociopolíticos e culturais.
Milhões de abortos acontecem e continuarão acontecendo todos os dias, com ou sem política pública. Dessa forma, vejo na legalização um caminho: deixando de ser marginalizado, abrindo-se um canal, grupos de discussão, apoio profissional à essas mulheres, não teríamos uma redução significativa desses números? Será que o processo estabelecido até o aborto não seria um caminho para reflexão?
Veja, não estou falando de “carta branca para matar”, eu falo de ACOLHIMENTO. Falo de orientações, de mostrar alternativas. Falo de acesso a informação, ao conhecimento! Além disso, LEGALIZAR, não significa OBRIGAR: continua fazendo quem quer, de acordo com seus princípios e valores.

Homens abandonam seus filhos e não são marginalizados. “Abortam” em vida e seguem… Vejo comentários esdrúxulos como “se não quer engravidar, que se cuide” e, com todas as minhas forças, repudio… Porque o cuidado não deveria ser unilateral. Mulheres não fazem filhos sozinhas.

A maternidade é compulsória, a paternidade não. Há algo de muito estranho nesse mundo.